Impulsionada pela adoção de gigantes como BlackRock e Franklin Templeton, a tokenização de ativos reais já soma mais de US$ 30 bilhões no mundo todo. Nesse contexto, o Brasil é um dos mercados mais dinâmicos do mundo nessa frente: os ativos tokenizados no país saíram de R$ 130 milhões para R$ 1,5 bilhão em doze meses, um crescimento superior a 1.000%.
A combinação responsável por esse movimento é específica. A Resolução CVM 88, que destravou ofertas públicas de pequeno porte, encontrou a maturidade técnica de plataformas locais e a chegada do Drex no horizonte regulatório. Para o investidor profissional e para o emissor de crédito, a tokenização deixou de ser experimento e se tornou canal de captação e de alocação.
Este guia consolida o que importa para investidores e profissionais de investimento sobre tokenização no Brasil em 2026: o conceito, os benefícios concretos, o tamanho do mercado, o marco regulatório vigente, os tipos de ativos disponíveis, como uma operação funciona na prática, as plataformas relevantes, os riscos e o que está mapeado para os próximos anos.
O que é tokenização de ativos
Tokenizar um ativo é representá-lo digitalmente em uma infraestrutura de registro distribuído, de modo que cada token corresponda a uma fração do direito subjacente. O ativo continua sendo o que sempre foi (um recebível, um imóvel, uma debênture, uma cota de fundo). O que muda é a forma como ele é registrado, transferido e custodiado.
A confusão mais comum é tratar tokenização como sinônimo de criptoativo. Um criptoativo nativo, como Bitcoin, existe apenas no ambiente digital e não representa direito sobre nenhum ativo do mundo real. Um token de RWA tem natureza diferente: é uma representação digital de um direito jurídico que existe fora da blockchain, com lastro documental, regulação aplicável e enforcement no sistema judicial brasileiro.
Em termos práticos, a tokenização estabelece o registro digital de ativos em um sistema que permite fracionamento de ativos e é auditável, sem fronteiras, com funcionamento 24h por dia, 7 dias por semana. Para o emissor, isso reduz custos de escrituração. Para o investidor, abre acesso a ativos que antes exigiam tickets altos ou estruturas de fundo.
Por que tokenizar: 5 benefícios concretos
Liquidez secundária. Ativos historicamente ilíquidos podem contar com mercado secundário on-chain, com liquidação instantâneo. Caso haja liquidez nesses mercados secundários, recebíveis comerciais, cotas de FIDCs e debêntures de pequeno porte ganham um canal de saída antes inexistente.
Fracionamento. Um CRI de R$ 50 milhões pode ser dividido em milhares de tokens de R$ 100 ou R$ 1.000, sem custo adicional relevante para a emissão e negociação das frações. O ticket mínimo deixa de ser função da estrutura jurídica e passa a ser decisão comercial do emissor.
Transparência operacional. O fluxo de pagamentos, a posição de cada investidor e o status de covenants podem ser registrados em base auditável em tempo real, o que reduz custo de reporte e melhora governança.
Custo de estruturação. Operações de pequeno porte que antes não comportavam o custo de uma estrutura tradicional de securitização passam a ser viáveis. No caso de emissões no Brasil via Resolução CVM 88, o regime regulatório simplificado e os contratos inteligentes reduzem etapas e intermediários.
Programabilidade. Regras de pagamento, waterfall, gatilhos de aceleração e distribuições periódicas podem ser escritas em código e executadas automaticamente. O risco operacional de processamento manual cai.
O mercado brasileiro de ativos tokenizados hoje
Os R$ 1,5 bilhão em estoque tokenizado no início de 2026 se distribuem entre quatro classes principais: recebíveis comerciais, crédito estruturado, cotas de fundos e Renda Fixa Digital lastreada em dívida corporativa.
No comparativo internacional, o RWA global atingiu US$ 30 bilhões em 2026 segundo a RWA.xyz, com o crédito privado respondendo por cerca de 17% do mercado. O Brasil representa cerca de 1% do total global em valor, mas concentra parcela relevante das emissões em recebíveis pulverizados, formato em que a estrutura local de FIDC se converte com facilidade para o ambiente tokenizado.
Para acelerar a adoção responsável no país, a ANBIMA conduz desde o início de 2026 um piloto regulatório com instituições para testar emissão e distribuição de ativos tokenizados em ambiente controlado. A expectativa é que os aprendizados subsidiem as próximas resoluções da CVM e do Banco Central até outubro de 2026.
Quem regula a tokenização no Brasil
O regime regulatório brasileiro para tokenização se apoia em quatro pilares.
A Resolução CVM 88 rege ofertas públicas de pequeno porte (até R$ 15 milhões anuais por emissor) e foi o instrumento que viabilizou a maior parte das ofertas tokenizadas atuais. Ela permite distribuição via plataformas registradas, dispensa de prospecto completo e estabelece limites de alocação para investidores de varejo.
A Lei 14.478/2022 (Marco Legal dos Ativos Virtuais) define competência regulatória sobre prestadores de serviços de ativos virtuais e atribui ao Banco Central a supervisão prudencial. Ela não regula tokens de RWA diretamente, mas estabelece o perímetro institucional em que as plataformas operam.
O Drex, infraestrutura de moeda digital do Banco Central, entrou em fase de implantação produtiva em 2026 e deve passar a usar registro digital futuramente. O desenvolvimento atual da plataforma está focado na reconciliação de gravames e a integração com sistemas de registro tradicionais.
O piloto ANBIMA funciona como sandbox setorial para o mercado financeiro e antecipa o desenho da norma definitiva. O órgão já está testando junto a instituições financeiras tradicionais a tokenização de debêntures e fundos.
Tipos de ativos tokenizáveis no Brasil
Renda Fixa Digital. Categoria de maior volume e maturidade operacional no Brasil, com R$3,3 bilhões captados em 2025 (Relatório Renda Fixa Digital 2026). Compreende debêntures, CRIs, CRAs, notas comerciais e cotas seniores de FIDC representadas em token.
Imóveis. Registro digital de empreendimentos comerciais e residenciais, que podem ter receita de aluguel ou ganho de capital distribuídos proporcionalmente.
Commodities. Soja, café, ouro e energia já têm emissões pontuais. O desafio é a custódia física e a verificação de lastro, resolvido com auditoria periódica e parcerias com armazéns gerais.
Recebíveis comerciais. Antecipação de duplicatas, recebíveis de cartão e contratos de fornecimento. É o terreno natural para FIDCs tokenizados.
Equity. Participação societária de empresas fechadas, normalmente PMEs em estágio de crescimento.
Como funciona uma operação tokenizada
O ciclo de uma operação se organiza em seis etapas.
Originação. Identificação do ativo subjacente, due diligence jurídica e financeira, definição de estrutura (direta, via SPE ou via fundo) e modelagem de riscos.
Estruturação. Definição dos termos da emissão, taxa, prazo, garantias, covenants, regras de subordinação e fluxo de pagamentos. É aqui que se programam as regras do produto.
Registro digital. Emissão dos tokens na infraestrutura escolhida (blockchain pública, DLT permissionada ou ambiente híbrido), com vínculo formal ao instrumento jurídico subjacente registrado em cartório ou em entidade de registro.
Distribuição. Oferta pública via plataforma autorizada, com KYC, suitability e limites por investidor conforme o regime aplicável (nos casos de Renda Fixa Digital e equity, normalmente a RCVM 88).
Liquidação. Liquidação financeira em moeda fiduciária via Pix ou TED, com a entrega do token contra pagamento. O Drex promete unificar essa etapa nos próximos ciclos de desenvolvimento do projeto.
Custódia e servicing. Custódia dos tokens em carteiras digitais institucionais e acompanhamento da carteira pelo servicer (monitoramento de covenants, cobrança, prioridade de pagamentos e relatórios). É a fase mais longa do ciclo e a que mais determina a saúde da operação.
Plataformas brasileiras
Mercado Bitcoin. Líder em volume tokenizado no país, com mais de R$ 620 milhões em Renda Fixa Digital emitidos e canal B2B com mais de 140 escritórios de assessoria. Atua como originador, distribuidor e tokenizador.
Liqi. Foco em recebíveis e crédito estruturado, com forte presença em operações white-label para gestoras e securitizadoras.
Foxbit. Plataforma de cripto que expandiu para tokenização de RWA, com produtos de Renda Fixa Digital e parcerias institucionais.
BEE4. Bolsa de tokens de equity para PMEs, com regime regulatório próprio aprovado pela CVM. Modelo mais próximo do mercado de capitais tradicional adaptado para tokens.
DeFin. Atua como infraestrutura de back-office para emissões tokenizadas, com servicing, reporte e integração com plataformas de distribuição.
A escolha da plataforma depende do tipo de ativo, do regime regulatório aplicável e do perfil do investidor-alvo.
Tokenização versus ativo digital tradicional
Antes mesmo da tokenização, o sistema financeiro brasileiro já operava com escrituração digital de títulos. A diferença está na arquitetura.
No modelo tradicional, o registro é centralizado em uma entidade autorizada, a transferência depende de processamento interno e o acesso à informação é mediado por intermediários. No modelo tokenizado, o registro é distribuído, a transferência ocorre em tempo real e o acesso à informação é direto via carteira digital.
Na prática, a tokenização funciona em paralelo à escrituração tradicional. Os dois modelos coexistem, com a tokenização ganhando espaço nos segmentos em que reduz fricção (pulverização, liquidez secundária, programabilidade), facilita distribuição internacional e/ou adiciona transparência, enquanto a escrituração tradicional preserva posição em produtos de larga escala já consolidados.
Riscos e considerações
Risco regulatório. O arcabouço ainda está em formação. Mudanças na RCVM 88, na regulação do Drex ou no entendimento da Receita Federal sobre tributação podem alterar a economia das operações.
Risco de custódia. Custódia inadequada de chaves privadas, falhas técnicas ou ataques à infraestrutura podem comprometer ativos. Plataformas institucionais usam custódia qualificada e auditoria de código, mas o risco residual existe.
Risco de liquidez. O mercado secundário ainda é raso. Em momentos de estresse, a saída pode ser limitada ou implicar deságio relevante.
Risco de plataforma. Falência ou descontinuidade da plataforma emissora ou distribuidora exige plano de continuidade. O servicer independente é o mecanismo central de mitigação.
Risco de lastro. Em ativos físicos (commodities, imóveis), a verificação periódica do lastro é etapa crítica. Auditoria independente e seguro são os instrumentos usuais.
O que vem em 2026-2029
O Drex deve entrar em produção plena ao longo de 2026, com integração progressiva às plataformas de tokenização. A arquitetura sem registro digital público traz desafios de reconciliação com os sistemas de registro tradicionais.
A combinação RWA + Pix + Open Finance é a fronteira mais promissora para o mercado local. Pix Automático para distribuições periódicas, Open Finance para portabilidade de posição e tokenização para representação de ativo formam um sistema único no mundo, com potencial de redefinir custo de capital para emissores de pequeno e médio porte.
O piloto ANBIMA encerra em outubro de 2026 e deve subsidiar a norma definitiva da CVM. A expectativa do setor é que o regime para ativos tokenizados convirja com o de valores mobiliários tradicionais em pontos como suitability, prospecto, governança e auditoria, preservando as vantagens operacionais do modelo distribuído.
Para o investidor profissional e para o emissor, o momento é de construir capacidade técnica e relacionamento com plataformas e servicers de qualidade. O mercado deve continuar crescendo aceleradamente, e a curva de aprendizado precisa ser construída com operação real.



