Beny Fard
CVM anuncia consulta sobre tokenização: o que isso muda para o crédito
Dívida e Crédito Corporativo18/06/20266 min de leitura

CVM anuncia consulta sobre tokenização: o que isso muda para o crédito

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Durante anos, quem trabalhou com tokenização de crédito no Brasil operou numa zona cinzenta confortável. A tecnologia funcionava, as estruturas fechavam, o investidor aparecia. E o regulador olhava de longe, sem se comprometer com um enquadramento. Essa fase está acabando.

A posse de Otto Lobo na CVM, e o que veio junto com ela, deixa claro que a tokenização saiu da fronteira experimental e entrou na agenda central do mercado de capitais. Para quem origina e estrutura crédito, é hora de prestar atenção. A tecnologia segue a mesma. O que muda é a moldura institucional em volta dela, e é a moldura que decide quem escala e quem fica preso a operação pontual.

O que aconteceu

Otto Lobo assumiu a CVM em 8 de junho de 2026. No discurso de posse e nas comunicações que vieram junto, dois pontos chamaram a atenção de quem acompanha ativos digitais.

O primeiro foi o anúncio de uma consulta pública sobre o marco de tokenização, com prazo declarado de até 100 dias para sair. Aqui preciso ser exato: a consulta foi anunciada, não está aberta nem em vigor. Não existe norma nova de tokenização valendo hoje. Existe um compromisso público de levar o tema à consulta dentro de uma janela definida. A distinção importa, porque consulta pública é começo de processo, e o resultado depende do que o mercado trouxer.

O segundo ponto foi o investimento em supervisão on-chain. A CVM sinalizou que vai desenvolver capacidade de acompanhar atividade registrada em blockchain, usando inteligência artificial e análise de cadeia. Isso pesa tanto quanto a consulta. Um regulador que constrói músculo de fiscalização on-chain está se preparando para tratar o ambiente tokenizado como mercado supervisionado de verdade.

Os dois pontos foram reportados por BlockNews e Finsiders Brasil em 9 de junho, com base no comunicado da CVM publicado no gov.br no dia anterior.

Por que isso importa para quem origina crédito

Quem origina crédito vive de duas coisas: acesso a investidor e previsibilidade de estrutura. A tokenização sempre prometeu melhorar a primeira, reduzindo o atrito de distribuição e fracionando o ticket. A segunda é onde o regulador faz diferença.

Enquanto o enquadramento fica informal, cada operação tokenizada carrega um prêmio de incerteza. Você explica a estrutura para cada investidor, o jurídico revisa tudo do zero, e o custo de convencer é alto. Um marco regulatório, mesmo ainda em consulta, começa a derrubar esse prêmio. Cria vocabulário comum, mostra o que o regulador considera aceitável e dá ao investidor institucional a referência que ele precisa para alocar sem receio.

Tem também o lado defensivo, e esse me interessa bastante. Supervisão on-chain com IA significa que improviso fica visível. Estrutura montada para driblar regra, em vez de cumprir, passa a correr risco bem maior. Para quem já opera com governança séria, isso é vantagem. A régua sobe e separa quem construiu base sólida de quem apostou na ausência de fiscalização.

O que a consulta provavelmente vai tratar

Aqui é expectativa, não certeza. A consulta ainda não tem texto público, e o conteúdo final depende do processo. Mesmo assim, pela trajetória da CVM e pelo debate que já corre no mercado, dá para apostar em alguns temas.

O primeiro é classificação. Quando um token representa um direito de crédito, ele é valor mobiliário? Sob que condições? A resposta define o regime de boa parte das operações de crédito tokenizado.

O segundo é o papel das infraestruturas. Quem custodia, quem registra, quem opera o ledger e qual responsabilidade cabe a cada um. Crédito tokenizado depende de uma cadeia de prestadores, e o regulador vai querer clareza sobre cada elo.

O terceiro é a conversa com os regimes que já existem, como o de FIDC e o de ofertas públicas. Tokenização não nasce no vácuo. A pergunta prática é como o novo enquadramento se encaixa em estruturas que o mercado usa há anos. Encarar isso como leitura provável, sujeita a mudança, é o que mantém o originador preparado sem ficar refém de achismo.

Tokenização é infraestrutura, não produto

Essa é a leitura que sustenta o resto, fácil de falar e difícil de engolir: tokenização é infraestrutura, não produto.

Tratada como produto, a tokenização vira mais um item de prateleira, uma promessa de retorno embrulhada em tecnologia da moda. Tratada como infraestrutura, ela vira o trilho por onde o crédito circula, se registra e liquida com menos atrito. Essa diferença muda toda a conversa, tanto com o regulador quanto com o investidor sério.

E essa leitura está pegando no próprio mercado. No Web Summit Rio, em 10 de junho de 2026, o CEO da Zoop, Cesário Martins, defendeu essa tese em painel, colocando a tokenização como camada de infraestrutura financeira. No mesmo painel, citou-se a casa dos US$ 500 bilhões em ativos reais já tokenizados no mundo, número que dá a dimensão da escala que o tema alcançou.

Lá fora, o capital reforça o argumento. No mesmo 10 de junho, a Figure anunciou a compra da Kiavi por US$ 717 milhões, com a tese explícita de levar crédito imobiliário para trilhos tokenizados. Quando uma operação desse tamanho se justifica pela migração de crédito real para infraestrutura on-chain, fica difícil chamar isso de aposta especulativa.

Como a DeFin já atua nesse trilho

A DeFin não está correndo atrás dessa agenda. Já estava nela. Construímos infraestrutura de crédito tokenizado tratando governança, estrutura jurídica e rastreabilidade como base do trabalho, não como enfeite. Na prática, quando o regulador formalizar o enquadramento, não vamos precisar refazer a fundação. Vamos ajustar o que já foi pensado para aguentar escrutínio.

Para o originador e o empresário que acompanham isso, a recomendação é direta:

  • Acompanhe a consulta quando ela abrir e, se fizer sentido, contribua. O texto final vai refletir quem apareceu.
  • Olhe as suas estruturas atuais com a pergunta certa: elas sobrevivem a uma supervisão on-chain com IA e análise de cadeia?
  • Escolha parceiro de infraestrutura que já trabalha com a régua que o regulador está prestes a montar, não com a régua frouxa da zona cinzenta.

A janela entre o anúncio e a norma é o tempo de preparação. Quem usa esse tempo chega pronto. Quem espera a norma para se organizar chega atrasado.

Conheça a infraestrutura de crédito tokenizado que a DeFin já opera.

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